Por: Carla Nechar de Queiroz*
Como foi dito anteriormente, DPAC refere-se a um grupo de indivíduos que , apesar de ter uma audição em níveis normais, não conseguem entender o que lhes é falado. Esta é uma situação um tanto difícil de se imaginar. Porém, vamos tentar fazê-lo imaginando que estamos em um país cuja língua falada não conheçamos. Sei lá, talvez a Finlândia. E, para seu azar, todas os finlandeses que falavam Inglês ou Português tiveram uma doença gravíssima de forma que só se fala a língua natal.
Imagine-se na Finlândia, sozinho e sem nenhum guia turístico. O que você faz? Como vai fazer para pedir um prato no restaurante? Como vai descobrir se o trem vai na direção na qual você quer ir? Como vai entender o quanto tem que pagar na loja pelas lembrancinhas que está comprando? Como vai saber se não está sendo explorado por ser estrangeiro?
Logo no início, você está obviamente perdido, perguntando-se o que foi fazer lá naquele fim de mundo gelado. Depois de algum tempo, já consegue fazer algumas associações, aprendendo a identificar o som das palavras mais comuns, talvez um “sim”, “não”, quem sabe até não se arrisca a identificar o nome das moedas ( um, dez, centavos, etc…). Será que eu poderia dizer que sei falar Finlandês só por que eu entendo algumas palavras? É claro que não!!! E se você fosse obrigado a ir ao cinema ? Será que iria se divertir muito? Seria capaz de entender o que se passasse no filme? Talvez mas com certeza você sairia do cinema cansado e com uma sensação de que perdeu um tempo incrível lá dentro. Isso, é claro, partindo-se do pricípio que você conseguiu ficar acordado durante o filme. Depois de alguns dias, estará frustrado, ansioso, sentindo-se incapaz e querendo voltar para casa mas não será capaz de chegar ao aeroporto a não ser que veja o desenho de um avião numa placa, que normalmente indica um aeroporto próximo( o outro jeito e imitar um aviãozinho….).
Agora, imagine uma criança, este ser que está crescendo e se desenvolvendo, aprendendo e apreendendo informações o tempo todo, perdida numa Finlândia sozinho….só que esta Finlândia é aqui, no Brasil, na casa, na escola, na aula de educação física, o tempo todo. Para crianças com DPAC, a nossa língua é “ouvida” como uma língua estrangeira, parece que é muito rápida, que não se consegue identificar o início de uma frase do final da outra que a antecedeu, tudo é uma barulheira só. Como é que ele vai conseguir pegar o que lhe foi pedido, se ele não tem a menor idéia do que foi? Ele sabe que algo lhe foi pedido pois ele ouviu um “por favor” e, ele pensa lá na sua cabecinha, “toda vez que papai fala isso, ele espera que eu lhe traga algo”. O pobre do menino já vai ficar todo nervoso e angustiado…ele não sabe o que é esperado dele.
Uma criança assim, com este tipo de desordem, sofre demais pois ela não pode simplesmente dizer que não está entendendo. A primeira reação dos pais será dizer que ela não presta atenção suficiente. Os pais já a rotularam de “desatenta” e nada mais normal que ela não entenda nada por isso. Os pais muitas vezes se irritam em ter que repetir as coisas duas ou até três vezes para que ela consiga realizar uma tarefa simples ( por exemplo, levar o copo para a cozinha e colocá-lo em cima da pia). Com grande frequência os pais foram surpreendidos, avisos que deveriam ter-lhe sido passados por seu filho mas que não o foram por que a criança não se lembrava do aviso; ela até sabia que tinha que dizer-lhe alguma coisa mas não sabia exatamente o que era. Pronto, o que a criança tem é um problema de memória! Talvez até seja mas se esta dificuldade for apenas para o que foi dito, ou seja, o que a criança teve que ouvir, muito provavelmente ela tem DPAC. Se ela se lembrar de ter encontrado a Tia lá no shopping ou de ter visto tal desenho, a memória dela parece estar funcionando muito bem.
A DPAC acaba abalando o relacionamento entre a criança e o resto da família, ambos os lados sentindo-se impotentes. Ocorre, também, um atraso global na criança. Na escola, ela vai brincar com crianças mais velhas ou mais novas, ambos os grupos que não se importam com suas dificuldades. Isso vai afetar seu desenvolvimento social. Algumas crianças apresentem dificuldade já durante o processo de alfabetização, com uma extrema dificuldade em associar um determinado som à uma letra ( ou grafema). O professor geralmente acredita que o problema é o comportamento da criança. A criança que seja alfabetizada “na marra” muitas vezes vai apresentar dificuldades mais tarde na sua vida escolar: não vai conseguir ler adequadamente em voz alta, desrespeitando pontos e vírgulas; vai ter dificuldade em lembrar-se das capitais dos países europeus ou dos afluentes do Rio Amazonas. Esta criança vai ter uma defasagem acadêmica tão maior quento for a demora para o diagnóstico e o início do tratamento.
Voltaremos a falar disso pois é um assunto muito extenso. Até a próxima e obrigada pelo seu interesse e pelas perguntas!!
* Carla Nechar de Queiroz é Fonoaudióloga chefe do Serviço de Fonoaudiologia da SPO
Formada pela EPM (atual UNIFESP) – Mestrado na Illionois State University – CRFa. 5263

